Instituto RAISES promove roda de conversa com a neuropediatra Dra. Ellen Siqueira

O Instituto RAISES promoveu uma roda de conversa online com a neuropediatra Dra. Ellen Siqueira, reunindo famílias, profissionais e interessados em um diálogo aprofundado sobre superdotação e dupla excepcionalidade.

Com o tema “Superdotação e Dupla Excepcionalidade”, o encontro conectou participantes de diferentes regiões do Brasil em torno de uma mesma necessidade: compreender, com mais precisão, as características, os desafios e as possibilidades relacionadas às Altas Habilidades/Superdotação.

Um espaço de acolhimento que se transforma em pertencimento

Ao longo da conversa, famílias compartilharam experiências reais, dúvidas e descobertas recentes. O ambiente rapidamente se consolidou como um espaço de escuta qualificada e troca consistente.

Um dos momentos mais marcantes foi o relato de uma mãe recém-chegada ao grupo, que descreveu o impacto de descobrir a superdotação do filho e como, em poucos dias, já se sentia parte ativa da comunidade. A experiência traduz um movimento recorrente entre os participantes: o acesso à informação gera envolvimento, e o envolvimento gera pertencimento.

Superdotação não é transtorno e exige leitura técnica

Durante a roda de conversa, a Dra. Ellen trouxe esclarecimentos importantes sobre interpretações equivocadas ainda muito presentes.

Foi reforçado que a superdotação não deve ser tratada como transtorno. Trata-se de um funcionamento cognitivo distinto, com maior eficiência nas conexões cerebrais, sem que isso implique, necessariamente, prejuízo psíquico. 

Também foi destacada a diferença entre supersensibilidade e Transtorno do Processamento Sensorial. A maior percepção de estímulos pode fazer parte da superdotação, enquanto o transtorno envolve prejuízos funcionais concretos no cotidiano. 

Orientação parental e exigência de critérios nas terapias

A condução das intervenções foi tratada de forma direta. A Dra. Ellen enfatizou que a família não deve assumir um papel passivo diante das terapias.

É necessário exigir das clínicas e profissionais um plano estruturado, com objetivos claros, metas definidas e acompanhamento contínuo. A ausência desses elementos compromete a efetividade do atendimento e deve ser questionada. 

No caso da Terapia Cognitivo-Comportamental, a eficácia está diretamente ligada à realização das atividades propostas fora das sessões. Sem esse acompanhamento, o processo perde consistência.

Também foi ressaltado que a escolha da abordagem terapêutica deve considerar o nível de desenvolvimento da criança, especialmente sua capacidade de expressar pensamentos e emoções.

Hiperfoco, habilidades e equívocos frequentes

A associação entre hiperfoco e superdotação foi relativizada. O termo não é um critério diagnóstico e não se aplica de forma obrigatória. O que se observa com maior frequência é o interesse intenso por determinados temas, sem prejuízo global. 

Outro ponto importante foi a distinção entre habilidade específica e superdotação. O desenvolvimento precoce em uma área pode caracterizar um prodígio, mas não define, por si só, um funcionamento cognitivo ampliado em múltiplos domínios.

Escola e necessidade de adaptação

A discussão sobre o ambiente escolar evidenciou a desmotivação como um dos principais sinais de inadequação.

Foram apresentadas alternativas como compactação curricular, aceleração por disciplina e estratégias de enriquecimento, que permitem maior aprofundamento e engajamento. 

A adequação do ensino às necessidades do aluno foi apontada como um fator determinante para evitar desinteresse e favorecer o desenvolvimento.

Informação qualificada e tomada de decisão

Ao longo do encontro, ficou evidente que o principal desafio das famílias não está apenas no diagnóstico, mas na condução das decisões posteriores.

Compreender conceitos, diferenciar condições e avaliar intervenções com critérios objetivos são elementos que impactam diretamente o percurso da criança.

A roda de conversa cumpriu esse papel ao oferecer informação técnica acessível, sem simplificações, permitindo que as famílias avancem com mais segurança nas escolhas que precisam fazer.