A evolução do atendimento às Altas Habilidades/Superdotação no Brasil: de Helena Antipoff ao PL nº 1049/2026
O debate sobre Altas Habilidades/Superdotação (AH/SD) no Brasil não começou recentemente. Muito antes da ampliação das discussões nas redes sociais e da expansão de clínicas, cursos e institutos privados, pesquisadores, educadores, famílias e instituições já construíam, há décadas, um caminho marcado por estudos, políticas públicas, formação docente e luta por reconhecimento educacional.
A trajetória brasileira das altas habilidades revela uma história extensa, complexa e frequentemente invisibilizada. Conhecer esse percurso é fundamental para evitar apagamentos históricos, compreender os consensos construídos ao longo do tempo e fortalecer políticas públicas mais consistentes para estudantes superdotados.
A presente matéria dialoga com o importante apanhado histórico realizado pela professora doutora Jane Chagas, que sistematizou marcos, legislações, pesquisadores, movimentos associativos e políticas públicas relacionados às Altas Habilidades/Superdotação no Brasil. O levantamento reúne desde as primeiras referências às crianças “bem-dotadas” no início do século XX até os debates contemporâneos envolvendo o PL nº 1049/2026, evidenciando a construção coletiva e histórica do campo das AH/SD no país.
Os primeiros passos: o pioneirismo de Helena Antipoff
Os primeiros registros documentados sobre crianças com desempenho acima da média surgem ainda em 1924, em relatórios do educador pernambucano Ulisses Pernambucano. Na época, já apareciam expressões como “bem-dotados”, “supernormais” e “precoces”, demonstrando que o tema começava a despertar interesse no cenário educacional brasileiro.
Entretanto, foi a atuação da psicóloga e educadora Helena Antipoff que consolidou as bases do atendimento às pessoas com altas habilidades no Brasil. Entre as décadas de 1930 e 1970, Antipoff articulou psicologia, educação especial e desenvolvimento de potencialidades humanas, tornando-se uma das figuras mais importantes da história da superdotação no país.
Em 1945, foi criado um atendimento educacional especializado para crianças bem-dotadas na Sociedade Pestalozzi do Rio de Janeiro, considerado um marco histórico do atendimento especializado no Brasil.
A organização institucional da área
A partir das décadas de 1960 e 1970, o governo federal passou a estruturar ações mais sistemáticas voltadas à superdotação.
Em 1967, o Ministério da Educação criou uma comissão destinada a estabelecer critérios de identificação e atendimento aos estudantes superdotados. Poucos anos depois, em 1973, surgiu o CENESP (Centro Nacional de Educação Especial), ampliando a organização nacional da educação especial e abrindo espaço para políticas voltadas às altas habilidades/superdotação.
Também foi nesse período que o Distrito Federal iniciou um dos programas públicos mais antigos do país para estudantes superdotados. O atendimento especializado da rede pública do DF começou em 1976 e se tornou uma das experiências mais longevas e reconhecidas do Brasil.
A chamada primeira geração de pesquisadores brasileiros da área foi formada por nomes como Eunice Soriano de Alencar, Maria Helena Novaes, Sarah Couto e Zenita Cunha Guenther, responsáveis por consolidar estudos sobre criatividade, talento, desenvolvimento humano e educação especial no Brasil.
A criação da ABSD e a expansão das pesquisas
Entre 1978 e 1979, foi criada a ABSD (Associação Brasileira para Superdotados), organização que se tornou referência nacional no fortalecimento do debate sobre superdotação antes da criação do ConBraSD.
Durante as décadas de 1980 e 1990, o Brasil passou por uma importante consolidação teórica da área. Surgiram pesquisas, publicações e programas voltados à criatividade, desenvolvimento de talentos e identificação de estudantes com altas habilidades.
Nesse contexto, destacam-se os trabalhos de Solange Muglia Wechsler, que criou o Clube de Talentos em 1986, e de Zenita Cunha Guenther, responsável pela expansão do CEDET (Centro para Desenvolvimento do Potencial e Talento), em Lavras, Minas Gerais, uma das experiências mais conhecidas do Brasil na área.
A Universidade Federal Fluminense também se consolidou como polo importante de pesquisa e atendimento em altas habilidades/superdotação, especialmente por meio dos trabalhos da professora Cristina Maria Carvalho Delou.
O Congresso Internacional de 1998 e a projeção internacional
Em 1998, Brasília sediou o Congresso Internacional sobre Superdotação, registrado pela UNESCO como III Congresso Ibero-Americano sobre Superdotação, com o tema “Superdotação: vetor de alianças na construção do futuro”. O evento reuniu pesquisadores brasileiros e internacionais e fortaleceu a articulação científica da área no Brasil.
O congresso representou um importante marco de internacionalização das discussões sobre identificação, desenvolvimento de talentos e políticas educacionais para estudantes superdotados.
Joseph Renzulli e a mudança de paradigma no Distrito Federal
No final da década de 1990, o atendimento às altas habilidades/superdotação no Distrito Federal passou por uma importante transformação teórica com a implementação das ideias do pesquisador norte-americano Joseph Salvatore Renzulli.
Considerado um dos pesquisadores mais influentes da psicologia educacional e da educação de superdotados no mundo, Renzulli desenvolveu a Teoria dos Três Anéis, baseada na interação entre habilidade acima da média, criatividade e envolvimento com a tarefa.
A implementação desse modelo no Distrito Federal esteve associada ao retorno da professora Denise de Souza Fleith ao Brasil após formação na University of Connecticut, em parceria com Marília Magalhães, então coordenadora do atendimento aos estudantes superdotados na Secretaria de Educação do DF.
Desde então, o Modelo de Enriquecimento Escolar passou a orientar práticas pedagógicas, identificação e propostas de desenvolvimento integral dos estudantes superdotados no DF.
A criação do ConBraSD e os NAAH/S
Em 2003, foi criado o ConBraSD, reunindo pesquisadores, famílias, profissionais e lideranças da área. Entre os nomes associados à criação da instituição estão Denise Fleith, Angela Virgolim, Jane Farias, Renata Maia, Renata Silva e Marília Magalhães.
O ConBraSD tornou-se uma das principais organizações brasileiras de defesa de direitos, pesquisa e articulação científica sobre altas habilidades/superdotação.
Em 2005, o Ministério da Educação implantou os NAAH/S (Núcleos de Atividades de Altas Habilidades/Superdotação) em todos os estados brasileiros e no Distrito Federal. A política foi idealizada por Renata Maia e representou um dos maiores avanços estruturais da área no país.
Os núcleos passaram a atuar em:
atendimento educacional especializado;
orientação às famílias;
formação continuada de professores;
disseminação de políticas públicas;
desenvolvimento de práticas educacionais voltadas aos estudantes superdotados.
Em 2007, o MEC publicou os materiais “A construção de práticas educacionais para alunos com altas habilidades/superdotação”, organizados por Denise de Souza Fleith e Angela Virgolim, reunindo pesquisadores de diversas regiões do país.
O avanço das legislações brasileiras
A consolidação do atendimento às altas habilidades/superdotação no Brasil também ocorreu por meio da legislação.
A Constituição Federal de 1988 garantiu o direito à educação e ao atendimento educacional especializado. Posteriormente, a LDB nº 9.394/1996 reconheceu oficialmente os estudantes com altas habilidades/superdotação como público da educação especial.
Outros marcos importantes incluem:
Resolução CNE/CEB nº 2/2001;
Política Nacional de Educação Especial na Perspectiva da Educação Inclusiva (2008);
Resolução CNE/CEB nº 4/2009;
Decreto nº 7.611/2011;
Lei nº 13.234/2015.
A Lei nº 13.234/2015 alterou a LDB para tratar da identificação, cadastramento e atendimento de estudantes com altas habilidades/superdotação na educação básica e superior.
O texto legal prevê a organização de um cadastro nacional desses estudantes com o objetivo de fomentar políticas públicas voltadas ao desenvolvimento de suas potencialidades.
O crescimento contemporâneo e os desafios atuais
A partir da década de 2010, o campo das altas habilidades/superdotação cresceu exponencialmente no Brasil. Houve ampliação de pesquisas, congressos internacionais, institutos privados, avaliações clínicas e discussões sobre dupla excepcionalidade.
Ao mesmo tempo, especialistas apontam desafios importantes:
subnotificação no Censo Escolar;
baixa identificação de estudantes;
falta de formação docente;
disseminação de mitos sobre superdotação;
excesso de medicalização;
fragilidade das políticas públicas de atendimento contínuo.
Entre os consensos apontados por pesquisadores e profissionais da área estão:
a necessidade de formação de professores;
a importância da orientação às famílias;
o caráter individualizado do atendimento;
a identificação precoce por múltiplos critérios;
o entendimento de que superdotação não é doença ou transtorno.
O próprio documento destaca que “superdotação não é uma doença ou transtorno do neurodesenvolvimento” e alerta para o cuidado com interpretações equivocadas que reduzem o fenômeno apenas a sintomas clínicos.
O PL 1049/2026 e o futuro das políticas públicas
Em 2026, o debate nacional passou a se concentrar também no PL 1049/2026, projeto que mobilizou pesquisadores, famílias, profissionais e movimentos ligados às altas habilidades/superdotação.
As discussões atuais envolvem temas centrais para o futuro da área:
critérios de identificação;
acesso ao Atendimento Educacional Especializado;
papel dos laudos clínicos;
formação de professores;
garantia de direitos;
fortalecimento das políticas públicas inclusivas.
Mais do que uma discussão legislativa, o debate evidencia a necessidade de preservar a memória histórica construída por gerações de pesquisadores, educadores e famílias que ajudaram a consolidar o campo das altas habilidades/superdotação no Brasil.
Conhecer essa trajetória é reconhecer que a história das AH/SD no país não começou agora. Trata-se de uma construção coletiva, científica e histórica que atravessa décadas de luta por reconhecimento, inclusão e desenvolvimento humano.


